Analfabetismo cresce na pandemia

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

No dia 08 de Fevereiro, foi divulgada um pesquisa nos meios e comunicação com um dado alarmante sobre a alfabetização das crianças entre 6 e 7 anos. Segundo a nota técnica, baseada na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), durante a pandemia, houve um aumento de 66% no número de crianças em idade de alfabetização, que não sabem ler, nem escrever, saltando de 1,4 milhão para 2,4 milhões de crianças entre 6 e 7 anos de idade. Em percentuais totais, houve um salto de 25,1% para 40,8% de crianças não alfabetizadas nessa faixa etária. A maioria, crianças pretas (47,7%).
De acordo com a pesquisa, é como se, de cada 25 crianças em uma sala de aula, 10 não tivessem sido alfabetizadas. O que é um recorde na última década, sendo que em 2012 o número de crianças não alfabetizadas era de 1,7 milhão (28,2%).
Um resultado cruel da gestão Bolsonaro na Educação
O crescimento do analfabetismo no Brasil durante a pandemia, também é responsabilidade do governo Bolsonaro, os alunos ficaram mais de um ano sem irem à escola, e isso aconteceu muito porque o Governo Federal retardou a vacinação da população em geral, das crianças e também dos professores. Então, esse ensino remoto, que contribuiu para atrasar o processo de alfabetização dos alunos, é sim, culpa do governo Bolsonaro.
Além disso, o governo de Bolsonaro não criou se quer uma política emergencial de apoio aos governos estaduais e municipais no enfrentamento dessa nova realidade na educação, dificultando a liberação de verba para a compra de equipamentos que pudessem melhorar a infraestrutura tecnológica das escolas, e, ajudassem os alunos mais pobres a terem ao menos computador e internet de qualidade para poderem estudar durante o período de isolamento social.
Tudo isso resultou no aumento brutal da já existente desigualdade no ensino básico brasileiro, onde crianças periféricas, pretas e pobres ficam para traz no processo de aprendizagem, tendo que enfrentar desafios como a fome, mas também agora, a falta de computador e internet para estudar.
Toda essa desigualdade pôde ser vista nas escolas de municípios pequenos e médios, mas também em municípios grandes e ricos como a cidade de São Paulo, por exemplo.
Foi justamente na cidade de São Paulo, sob as gestões do falecido prefeito Bruno Covas, e do atual, Ricardo Nunes, que a falta de uma ação coordenada e eficiente entre a esfera municipal, estadual e federal escancarou o tamanho do problema que temos na educação pública brasileira no atual momento. Os alunos demoraram quase um ano após o início da pandemia para receberem os tablets e o pacote de internet para estudarem remotamente, além da falta de formação para os professores poderem lidar com essa nova realidade, numa insistente demora em fornecer equipamentos adequados para poderem trabalhar. Isso tudo, no município mais rico do país!
Além disso, milhares relataram ter problemas para conseguir acessar o cartão merenda, fundamental para que pudessem ter o mínimo de condições de se alimentarem. Afinal, não dá para estudar de barriga vazia.
Então, no foi somente a pandemia a causadora desse aumento vertiginoso no número de crianças não alfabetizadas, mas também a péssima gestão da maioria dos prefeitos e governadores, mas, principalmente o “jogar contra” do presidente Jair Messias Bolsonaro. Sim, ele e o MEC são os maiores responsáveis por essa tragédia na educação básica.
O que fazer agora?
Os governos estaduais e municipais vêm implementando a escola em tempo integral como mecanismo, segundo eles, para também proporcionarem a recuperação de aprendizagens aos alunos, aumentando o tempo dos estudantes nas escolas. Mas, há muitas críticas a esse modelo de escola, justamente, porque a própria estrutura física e burocrática da escola pública não favorece a educação em tempo integral. Um dos problemas é a falta de professores, outro é a ausência de espaço e salas de aulas adequadas, o que acaba fazendo com que a escola se transforme em mero “depósito de alunos”, ao invés de contribuir para o processo de recuperação de aprendizagens dos estudantes, promovendo poucos resultados educacionais. Além disso, no caso do estado de São Paulo, a implementação da escola em tempo integral fez com que cerca de 14 mil alunos não conseguissem vagas nas escolas públicas. Um absurdo!
Tudo isso, aliado a problemas históricos como a falta de formação continuada para a categoria docente, a precarização das condições de trabalho com escolas sem infraestrutura, e os salários muito abaixo da média das profissões de nível superior, o que afasta os estudantes mais aplicados dos cursos de licenciatura, prejudicando em quantidade e qualidade a formação docente.
Sendo assim, fica nítido que já passou da hora de tratarmos a educação básica com seriedade, saindo do mero discurso em prol da educação. A sociedade brasileira e principalmente os políticos precisam reverter todo esse quadro de abandono e precarização na educação pública.
Se quisermos realmente revolucionar a educação brasileira, precisamos passar sim pela formação dos professores, mas também pela valorização dos profissionais de educação, além de uma mudança radical na estrutura arquitetônica e organizacional das escolas públicas, isso significa ter menos alunos em sala de aula e mais escolas para os alunos. Aliando um projeto de Estado para a educação a um projeto econômico de país. Sim, a melhora na qualidade da educação só virá se o modelo econômico mudar, não é possível existir educação de qualidade em um país desindustrializado, como o Brasil. O setor de serviços não puxa a educação para cima como a indústria, principalmente como a indústria de ponta faz, por precisar de mão de obra qualificada. Sem a exigência de formação de mão de obra altamente qualificada, nenhum país investe em educação. Mas isso é um papo para um próximo artigo.

Felipe Alcântara

Felipe Alcântara

Escritor do Centro de Estudos em Filosofia Americana-CEFA, professor de Geografia da Rede Municipal de Ensino de São Paulo, proprietário do canal Ponto Crítico