Novo Ensino Médio

Novo Ensino Médio – Voar alto com os pés no chão

Faz parte do fazer democrático ter pautas históricas e utópicas. É isso que faz a luta caminhar na construção do que se almeja. A Educação é um exemplo de pasta que é conhecida pela dicotomia entre a relevância para qualquer avanço humanitário, socioeconômico ou tecnológico e a prática de desvalorização e sucateamento.
Nos últimos dias tem acontecido um debate acalorado sobre o Novo Ensino Médio que veio com uma roupagem de escolha dos estudantes de seus próprios itinerários formativos de acordo com seus interesses e aumento da carga horária na escola, mas que tem dado o que falar!
Este ano tem sido o primeiro momento em que é possível observar como esse processo tem se dado na prática: escolha de ter aula do que se tem ofertada por quem não sabe como fazer. E dizer que o professor não sabe fazer é desvelar que professor não sabe de tudo! Quem estudou Filosofia e está tendo que lecionar sobre Brigadeiro de colher e empreendedorismo ou quem é formado em Letras, com um salário horroroso, cheio de empréstimos e está lecionando sobre a Arte de fazer seu primeiro milhão é engodo! Óbvio que os nomes dos itinerários formativos são fictícios, mas a prática tem sido nesse nível de absurdo.
Não é possível afirmar que isso tem sido bom, na medida em que não foi oficialmente avaliado e somente afeta a realidade das escolas públicas, já que a rede particular está oferecendo a tal reestruturação do currículo em formato de contraturno escolar, não prejudicando portanto áreas tradicionais como Matemática, História e Química.
Outro nó importante a ser apontado é a questão do vestibular. Se o mesmo não está em consonância temporal com o Novo Ensino Médio, os jovens advindos da escola pública estarão em maior desvantagem ainda! O que responder numa questão sobre moléculas de carbono quando a aula foi suprimida por outra de comportamento esperado numa entrevista de trabalho? O alinhamento entre o que se oferece e o que se cobra deve ser premissa!

E o velho Ensino Médio?

Apesar do Novo Ensino Médio ter vindo a toque de caixa e num período político bem conturbado, não se pode negar que a coisa como vinha também não estava boa. Elevados níveis de evasão e desinteresse por parte dos jovens cada vez mais preocupados com outros atrativos como o mundo do trabalho, a tecnologia e a realidade concreta em que a escola secular, engessada e com estrutura capenga também não dava conta.
O professor formado em História que hoje dá aula de coreografias teens, ontem era o que lecionava Geografia, Filosofia e Sociologia em 4 escolas para conseguir completar a carga de aulas!
Ter uma escola pra rico e outra pra pobre não veio com a Reforma do Ensino Médio, professores com suas funções sucateadas também não, currículo pautado pelo vestibular e provas externas também não, prédios escolares em desacordo com as necessidades dos jovens também não.
A coisa é muito mais profunda do que simplesmente a discussão sobre revogação ou não.

Revoga e coloca o que no lugar?

Talvez este seja o principal ponto de debate para trazer os pés para o chão. O país não está passando por um processo revolucionário. Grupos financistas continuam compondo o Ministério da Educação com verba carimbada. Índices externos continuam ranqueando a educação mundo afora. O famigerado Mercado continua mais vivo do que nunca!
É importante colocar as cartas na mesa, revelar os problemas e as dificuldades desde concepção, implementação e aplicabilidade do Novo Ensino Médio e pautar que o caminho seja rediscutir a etapa com ampla participação da categoria que atua no “chão da escola”, pesquisadores, estudantes e sociedade em geral. Não se pode abandonar este horizonte. Mas a vida prática urge!
É preciso tratar em paralelo o presente. Diante do contexto, o que é possível fazer agora? Anular carga horária, atribuição de aulas, ampliar o ano letivo, mudar quem (profissional) tem a comida no prato. Quem vai às ruas por isso? O ENEM não caiu. A seleção para as Instâncias superiores continuam. Para o estudante que está terminando o Ensino Médio agora, que precisa de “solução” imediata para uma questão concreta. O que é mais fácil acontecer?
Uma luta não anula a outra, mas construir narrativa utópica na areia com ano letivo em curso imaginando que em pouquíssimo tempo a realidade de desmonte da Educação vai acabar beira ser quase tão irresponsável quanto os que defendem a reforma no formato atual.

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